Um conto e algumas observações
Pois é, acabo de decidir que esse blog pode ter uns contos meus e coisas do tipo de vez em quando. Sabe como é, falta um pouco de tempo e de vontade para eu atualizar ele como ele merece, então hoje eu resolvi postar esse conto que eu escrevi. Em breve farei um post não tão preguiçoso, prometo. Aliás, ía ser bem legal saber se alguém passa por aqui de vez em quando, então uns comentáriozinhos viriam bem
Pode até dizer que tá horrível, eu aguento.
Flores Amarelas
- Feliz aniversário, querido!- disse a mulher do vestido amarelo.
Parecia ter entre 60 e 70 anos, mas seu sorriso largo e o brilho de seus olhos azuis poderiam pertencer a uma menina de oito anos. Ela sentou-se devagar.
- Está ficando difícil, sabia? Vir até aqui falar com você. Não tenho mais trinta anos. – disse ela tentando ficar séria.
- Você não sabe mentir para mim, sei que não está brava. – disse ele com sua voz doce.
- Senti falta da sua voz – disse ela engolindo em seco.
- Você sabe como me encontrar, querida.
- Sim, sei- disse ela mexendo na barra do vestido
- Está de amarelo, não está?
- Estou- disse ela rindo – Como você sabe?
- Não me esqueci do dia em que nos conhecemos, querida.
A mulher sorriu. Também não havia esquecido. Podia esquecer-se de pagar as contas, ultimamente, ou trocar o nome dos médicos, mas daquele dia não. Disso ela não esqueceria.
Chovia e fazia frio naquele fim de outubro. Marieta havia saído de casa para comprar pães para a mãe. Estava usando seu vestido preferido, o amarelo, e a sombrinha de mesma cor que sua avó a havia dado. Sempre havia gostado da chuva. De sair na rua na chuva. Desde pequena sempre buscava motivos para sair de casa e ver a água pingando nas calçadas, sentir o cheiro da grama molhada. Ele trabalhava no caixa da pequena padaria perto da igreja. “Você gosta de amarelo, não é?”, perguntou ele tímido. “Sim.”- disse ela sorrindo com curiosidade – “É minha cor preferida. Por quê?”. “Fica lindo em você”, respondeu ele. Quando chegou em casa, ainda pensando no que havia acontecido, Marieta abriu o pacote de pães e viu, em cima de tudo, uma pequena flor. Uma flor amarela.
- Eu te amei desde a primeira vez em que te vi sorrir. – disse ele, interrompendo suas lembranças. -Como está nossa filha?
- Está bem, está ótima. Pedro faz um bem danado para ela, não sei o que seria da Isabela sem ele. – Marieta sorriu com ternura – Ritinha também está linda. É um doce de menina. Cresceu tanto desde a última vez em que a viu! Ela sente a sua falta.
- Sinto falta dela também.
- Eu sinto a sua falta. – disse ela, agora com seus olhos azuis marejados de lágrimas. – Quero te encontrar logo.
- Eu sei querida, também quero, mas não pode apressar as coisas. Promete que terá paciência? Sei que você consegue. Já passou por tanto…
- Prometo. – disse Marieta abrindo um sorriso relutante.
A mulher calou-se por um instante com o olhar preso nas nuvens acinzentadas que contrastavam com o céu exageradamente azul que fazia naquela tarde.
- A senhora já terminou, dona Marieta?- perguntou o jovem moreno de uniforme branco que a esperava a alguns metros dali- Parece que vai chover daqui a pouco. Não queremos que fique doente de novo. – disse ele sorrindo afetuosamente.
Marieta assentiu para o jovem e voltou a olhar para frente – Eu te amo, querido- disse ela abrindo seu sorriso. – Nos vemos em breve!
Marieta levantou-se e colocou gentilmente o buquê de flores que segurava entre os dedos sobre o túmulo de seu marido. Flores amarelas.
Dosansil respondeu:
A narrativa foi conduzida num clima bastante gostoso de ler. Do princípio ao fim. Havia um ar de confusão, uma impressão no ar, de se tratar de uma história contada a partir da metade. O leitor fica um pouco perdido, o que está acontecendo? Com quem ela está falando? Por que ele pergunta a cor do vestido dela? Não pode ver? Mas no final tudo se esclarece. O fúnebre desfecho soa bastante poético. Você consegue prender a atenção do leitor. Bela e criativa narrativa!
abril 3, 2010 at 2:56 am. Link Permanente.
alimello respondeu:
Muito obrigada! Enfim, um comentário. haha
abril 4, 2010 at 11:35 pm. Link Permanente.
V.Q respondeu:
arrepiei-me toda. Acho que isso já diz muita coisa.
meus parabéns, Aline!
junho 10, 2010 at 12:13 pm. Link Permanente.
Carolina Beidacki respondeu:
Aline, me arrepiei lendo o conto. Muito lindo, de verdade
Foi voluntário ou tu escreveu pra alguma cadeira?
janeiro 3, 2011 at 10:52 pm. Link Permanente.
alimello respondeu:
Meu Deus, achei que ninguém mais entrasse nisso aqui haha. Foi voluntário sim, Carol. Obrigada
janeiro 3, 2011 at 11:07 pm. Link Permanente.